15.05 — 30.05.2026
Entre o Gesto e a Palavra
Paulo Canilhas

TEXTO CURATORIAL
A palavra acumulou, nas últimas décadas, uma crise silenciosa: multiplica-se sem aumentar de peso. Circula depressa, adapta-se à superfície de cada contexto e chega, frequentemente, sem comprometer quem a emite. Não desapareceu — tornou-se ornamental.
É a partir desta fratura que Paulo Canilha organiza Entre o Gesto e a Palavra. A exposição não propõe uma saída, nem uma nostalgia. Propõe um desvio de atenção: do que se diz para o que se faz; da intenção declarada para a inscrição irreversível no real.
O trabalho que aqui se reúne, desenvolvido no âmbito da coleção PALAVRA (2023) e trazido agora a exposição pública pela primeira vez, parte de um conjunto de peças sobre chapa de alumínio. O alumínio não funciona como fundo neutro: reage, resiste, altera. Cada superfície é o registo visível de uma negociação — entre o que o gesto pretendia e o que a matéria permitiu. O resultado não é demonstração de controlo, mas evidência de encontro.
O gesto, neste contexto, não é celebrado como alternativa heroica à linguagem. É simplesmente o que acontece: ocupa espaço, deixa marca, não pode ser desfeito. Essa irreversibilidade é o seu único privilégio — e também a sua vulnerabilidade.
Entre o Gesto e a Palavra instala-se num intervalo deliberadamente incómodo: a linguagem não ancora o sentido, o gesto não o resolve. É precisamente nessa suspensão — crítica e sensível em simultâneo — que o trabalho se afirma e convida o olhar a demorar-se.
Sara de Araújo Sequeira, Curadora
ARTISTA
Paulo Canilhas
Paulo Canilhas (Almada, 1969) trabalha na intersecção entre pintura e escultura, desenvolvendo o seu trabalho por séries. A sua prática parte de vivências pessoais transformadas em estruturas visuais, explorando o equilíbrio frágil entre ambição e limite, avanço e resistência.
Com formação no Curso Avançado de Artes Plásticas do AR.CO, realizou, entre outras, uma residência artística com o escultor António Júlio e colaborou durante um ano como assistente de curador na galeria MAC. O seu trabalho integra coleções privadas e institucionais em Portugal e no estrangeiro.
