SOBRE A ARTISTA

ARTIGO EDITORIAL
Há artistas que encontram cedo o seu caminho e outros a quem o caminho vem ao encontro. Leonor Pires pertence ao segundo grupo. Chegou tarde à prática artística, mas nunca com pressa, e é essa recusa da pressa que define o seu trabalho: uma pintura onde a paisagem e a memória se tocam e onde o acaso é, deliberadamente, convidado a entrar.
“A pintura é sempre um território de negociação entre a minha vontade de pintar e a autonomia da matéria.”
— Leonor Pires
“A arte aconteceu-me”
É assim que a própria descreve o início do seu percurso. O gosto pela arte esteve sempre presente, mas a prática surgiu de forma inesperada, num momento que coincidiu com a mudança para Bruxelas e com o encontro com uma artista que define como “extraordinária”. Foi esse encontro que transformou uma inclinação antiga numa “prática e numa disciplina de vida”.
A década de 90 lançou-lhe então um desafio decisivo: passar de apreciadora de arte a artista. Fê-lo em paralelo com uma carreira exigente na Comissão Europeia, o que ajuda a compreender o caráter da sua obra: construída sem calendários impostos, ao ritmo de quem não precisa de provar nada, apenas de continuar a procurar.
Uma formação feita de encontros
O seu percurso formativo começou à margem do ensino académico. Durante quatro anos frequentou, em Bruxelas, um atelier de mestre em pintura focado na individualidade e no desenvolvimento conceptual de cada artista. Foi aí, diz, que aprendeu “os fundamentos de quase tudo” o que sabe, e a olhar para os grandes mestres para perceber “como e porquê certas obras resistem ao tempo e se tornam eternas”.
Só depois veio o ensino formal, mais centrado na técnica e na tradição. Leonor Pires resume a diferença entre os dois com uma imagem precisa: “Se este tipo de ensino me forneceu o abecedário artístico, o tutorial permitiu que o usasse para criar a minha própria escrita.”
A estas duas escolas junta uma terceira, talvez a mais determinante: a diversidade e os encontros. Os lugares por onde passou, onde ficou e a que voltou acabaram por se instalar no seu universo visual, tal como as obras que foi vendo ao longo da vida. “Todos somos atravessados pelas obras que vemos”, afirma. “A questão é perceber o que fazemos com essa informação e porquê.”
Pensar devagar, decidir na ação
Cada obra começa por uma pergunta. Pode ser nova ou o desdobramento de um pensamento recorrente que ainda não sente esgotado. Segue-se um longo período de maturação: lê, recolhe imagens, escreve. Quando finalmente começa a pintar, leva consigo “um ‘mundo’ de informação e de possibilidades”.
É no gesto que esse mundo se organiza. “A decantação faz-se na ação”, explica. Por isso cada tela, cada escultura, começa por ser forma antes de assumir um significado. A composição constrói-se, apaga-se e reconstrói-se vezes sem conta, com diferentes materiais e técnicas. “Trabalho entre o caos e a sedimentação. A imagem nasce por acumulação e perda. Surge do encontro entre a minha intenção e a resistência da matéria.”


Dois tempos na mesma tela
Em pintura, trabalha atualmente com acrílico sobre tela de linho, a que junta lápis aguarela, fusain, pastel seco, tinta-da-china e colagem. Sobrepõe planos e camadas que depois raspa, lixa ou risca, para que cada uma guarde uma presença, “um eco anterior”. Quando a composição o pede, recorre ao dripping, aos escorrimentos e às linhas quebradas, criando uma textura enérgica e um “descontrolo deliberado do gesto”.
O mais singular no seu processo talvez seja a convivência de dois tempos distintos: “um tempo lento e expansivo, que constrói a atmosfera da tela, e outro súbito e convulsivo, feito de intervenções diretas e táteis”. É desta tensão entre contemplação e impulso que nascem as superfícies densas e vibrantes das suas pinturas.
Na escultura, a lógica é a mesma, mas os materiais mudam: tela e fio de arame, papier-mâché, crinas, cordéis, ramos, papel vegetal parafinado. Materiais “singelos e de grande plasticidade”, escolhidos pela liberdade que permitem na execução.
Negociar com o acaso
Entre o que planeia e o que a obra decide por si, há sempre negociação. Muitas das texturas do seu trabalho nascem de um acaso que considera “revelador”, acolhido e usado para dar estrutura à imagem.
Foi, aliás, uma obra sua que mudou o rumo do seu trabalho: um retrato de 1995 que desencadeou um questionamento pessoal e alterou, nas suas palavras, “o ADN” do seu processo criativo. Desde então, reconhece que há sempre obras reveladoras que obrigam a recomeçar a pesquisa, a levar o processo ao limite e, por vezes, a mudar completamente de direção.
O que vem a seguir
Leonor Pires prepara uma exposição para o final de 2027 a partir de um ensaio fotográfico que realizou, um projeto sobre a duração do tempo, sobre vestígios, presenças e ausências. Em paralelo, regressou àquilo a que chama corpo-órgão: pequenas telas de 15 × 15 cm, sobretudo a preto e branco. A alternância entre grandes e pequenos formatos é, para si, uma necessidade: “A mudança de escala enriquece a minha perspetiva.”
E há um sonho antigo: uma exposição em torno de O Pintassilgo, de Carel Fabritius, obra que a fascina desde a primeira vez que a viu. Ainda não sabe como nem quando. “Talvez seja essa a parte mais interessante”, diz. “E talvez seja em 2027.”
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Sara de Araújo Sequeira, Curadora da 23A Galeria
