SOBRE A ARTISTA

ARTIGO EDITORIAL
Uma vocação com origem na Ericeira
Há vocações que se anunciam cedo e não voltam a hesitar. A de Maria De Fátima Silva tem data aproximada: aos doze anos já sabia que queria ser pintora. O caminho abriu-se através de uma tia e de uma memória de família invulgar — em criança, na Ericeira, essa tia posou algumas vezes para a Paula Rego.
É uma origem que diz muito. Antes de qualquer escola ou técnica, a pintura chegou-lhe como algo próximo, transmitido de pessoa para pessoa, através de uma história contada em casa. A arte não surgiu como abstração distante, mas como um lugar onde alguém que conhecia já tinha estado.
Entre a escola e o mundo
A formação deixou marca no modo como trabalha, sobretudo na forma como o processo se organiza. Mas a artista recusa uma leitura única: aquilo que pinta é resultado tanto do que aprendeu em contexto académico como do que foi descobrindo fora dele. As duas aprendizagens não competem — sobrepõem-se, como camadas de uma mesma superfície.
Primeiro o símbolo, depois a tela
Cada obra, ou cada série, nasce longe do cavalete. O ponto de partida é invariavelmente uma pesquisa teórica sobre significados e simbologia: o que uma forma quer dizer, que histórias carrega, que tradições a atravessaram. Só depois chega a pintura, que avança em simultâneo nas telas e nos esboços.
O método é de alternância. A artista passa de um suporte para o outro, deixa que um informe o outro, e regressa sempre que necessário, até que o trabalho encontre a sua forma final. Não há um gesto inaugural único, mas um vaivém contínuo entre pensamento e matéria.
Acrílico, tela e papel
Os materiais são vários, mas há uma base que se mantém: o acrílico, aplicado sobre tela e sobre papel. É uma escolha que acompanha bem um processo feito de alternâncias — permite trabalhar em camadas, retomar, corrigir e prosseguir, ao ritmo de uma investigação que nunca está totalmente fechada.


Um diálogo a dois
Perguntar a Maria De Fátima Silva sobre a tensão entre o que se planeia e o que a obra decide por si é receber uma resposta sem drama. Não há luta com o acaso, nem controlo absoluto: há conversa. A pintura responde, a artista escuta, e o resultado emerge dessa troca. O plano inicial — a pesquisa, os símbolos — é um ponto de partida, não uma prisão.
“O trabalho entra em diálogo comigo e eu com ele.”
— Maria De Fátima Silva
Geografias invisíveis
As referências que habitam o seu trabalho formam um mapa largo. Na pintura, convivem os renascentistas, os impressionistas e os contemporâneos. Fora dela, estende-se um território mais antigo e mais profundo: a literatura, a arqueologia, o megalitismo, a mitologia e, de forma particular, a história espiritual portuguesa.
É talvez aqui que o trabalho encontra o seu centro de gravidade. Menhires, antas e mitos não surgem como citação decorativa, mas como camadas de sentido que a pintura procura trazer à superfície. Pintar torna-se, assim, uma forma de escavação — de um passado que continua presente, ainda que silencioso.
As obras que mudam o olhar
Não existe, para a artista, uma única obra reveladora. Houve várias — suas e de outros — que alteraram a forma como vê o que faz. E essa é precisamente a questão: essas mudanças não são desvios, mas parte natural do caminho. O olhar vai-se refazendo com cada encontro.
O que ainda não se mostra
O que está a ser preparado permanece, por agora, em reserva. Mas a direção é clara: Maria De Fátima Silva continua a descobrir novos temas dentro da tradição espiritual portuguesa, uma fonte que não dá sinais de se esgotar. É dela que vem o impulso para continuar — e é a partir dela que se adivinha o próximo capítulo do seu trabalho.
Este artigo foi elaborado com base numa entrevista realizada à artista Maria De Fátima Silva para a secção Em Foco.
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Sara de Araújo Sequeira, Curadora da 23A Galeria
