11.04 — 25.04.2026

Poiesis

Dália Cordeiro

TEXTO CURATORIAL

Na exposição POIESIS, Dália Cordeiro apresenta um conjunto de obras onde a pintura se afirma como território de criação em estado puro — um espaço onde a imagem não ilustra, mas emerge. A poiesis, na sua aceção original de ato de fazer e de trazer ao mundo o que ainda não existe, atravessa toda a prática da artista e manifesta-se como impulso gestual, intuitivo e profundamente matérico.

Sem filiação estilística rígida, o trabalho aproxima-se de linguagens expressionistas e surrealistas, desenvolvendo uma gramática visual marcada pelo gesto e pela transformação contínua da forma. As composições sugerem figuras, fragmentos e elementos que se reorganizam em campos cromáticos vibrantes, abrindo espaço a leituras múltiplas sem se fixarem numa narrativa única — onde o íntimo e o imaginado se cruzam de forma livre e não programática.

A diversidade de suportes — telas de diferentes formatos, superfícies ovais e composições mais abertas — reforça esta lógica de experimentação. Em oposição à tradição conceptual que promove a desmaterialização da arte, Dália Cordeiro afirma a materialidade da pintura: na espessura da tinta, na marca do gesto, na presença física do objeto. Cada obra torna-se um campo de inscrição onde o movimento da artista permanece visível.

Há neste conjunto uma tensão entre controlo e espontaneidade, entre o figurativo e o onírico, onde a lógica se dilui e dá lugar a associações livres. POIESIS propõe assim uma aproximação à origem do gesto artístico — um lugar onde criar é experimentar, recompor e dar forma ao indizível —, convidando o espectador a habitar esse espaço intermédio entre reconhecimento e estranhamento.

O trabalho que aqui se reúne, desenvolvido no âmbito da coleção PALAVRA (2023) e trazido agora a exposição pública pela primeira vez, parte de um conjunto de peças sobre chapa de alumínio. O alumínio não funciona como fundo neutro: reage, resiste, altera. Cada superfície é o registo visível de uma negociação — entre o que o gesto pretendia e o que a matéria permitiu. O resultado não é demonstração de controlo, mas evidência de encontro.

O gesto, neste contexto, não é celebrado como alternativa heroica à linguagem. É simplesmente o que acontece: ocupa espaço, deixa marca, não pode ser desfeito. Essa irreversibilidade é o seu único privilégio — e também a sua vulnerabilidade.

Entre o Gesto e a Palavra instala-se num intervalo deliberadamente incómodo: a linguagem não ancora o sentido, o gesto não o resolve. É precisamente nessa suspensão — crítica e sensível em simultâneo — que o trabalho se afirma e convida o olhar a demorar-se.


Sara de Araújo Sequeira, Curadora

ARTISTA

Dália Cordeiro

Dália Cordeiro nasceu no Barreiro em 1955. Formou-se em Educação Visual e Tecnológica pelo Instituto Piaget em Almada e lecionou artes visuais durante mais de trinta e cinco anos na escola pública portuguesa, em particular na Escola Álvaro Velho no Barreiro.

Nos últimos anos tem-se dedicado por inteiro à produção artística. Desde 2012 expõe regularmente em mostras coletivas e individuais. No entanto, foi sobretudo desde 2021 que a sua obra ganhou uma maior projeção pública, em particular através de icónicos salões de arte moderna e contemporânea, bem como de bienais e feiras de arte. Para além de, por exemplo, a sua participação na IV Bienal de Génova, as suas consecutivas participações no Salon d´Automne de Paris e na Art Capital Paris – históricos salões constituídos por um júri crítico – são reflexos da pertinência do seu trabalho que oscila entre representações surrealistas e expressionistas.


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