13.09.2025
27.09.2025

onde cantam as cotovias 115x150

O Canto da Cotovia

A obra de Ana Cristina Dias nasce de uma relação íntima entre memória, identidade e imaginação. A infância em Lisboa, nos últimos anos da ditadura, foi o ponto de partida de uma consciência de mundo e de uma vocação artística. Desde cedo, o desejo de ser pintora foi alimentado pelo pai e pela presença das suas obras em casa. Essas memórias afetivas tornaram-se o alicerce de um percurso criativo onde a pintura se afirma como território de liberdade e afirmação pessoal.

Formada na Escola Artística António Arroio e licenciada em Pintura pela Faculdade de Belas-Artes de Lisboa, construiu uma linguagem própria, explorando igualmente a gravura e a fotografia. Se a gravura não correspondeu ao seu ímpeto criador imediato, a fotografia permanece como instrumento fundamental: um olhar atento sobre a natureza, que mais tarde se converte em matéria pictórica e narrativa.

Nas suas telas, como em “Onde cantam as cotovias” (acrílico sobre tela, 115×150 cm), emergem composições que cruzam o realismo atmosférico com um imaginário poético. A figura feminina voltada para o horizonte oceânico convoca contemplação e inquietação, numa cena atravessada pelo silêncio e pela tensão entre humano e natural. As dunas evocam infância e memória — territórios frágeis que funcionam como refúgio e origem — enquanto a repetição geométrica das casas de praia contrasta com a vastidão do mar, acentuando a suspensão e a distância entre rigidez humana e liberdade da natureza.

A sua pintura dialoga com Edward Hopper, pela construção de atmosferas suspensas e narrativas silenciosas, e com um certo romantismo contemporâneo, visível na exaltação da natureza como espaço de liberdade e reencontro consigo mesma. Em todo o percurso, Ana Cristina Dias afirma-se como contadora de histórias visuais, inventando narrativas sempre, de algum modo, autobiográficas.

Ao transformar recordações em matéria artística, reafirma um manifesto íntimo: a recusa de jaulas e fronteiras, a celebração da liberdade e a convicção de que a arte é veículo de autoconhecimento e partilha.

Sara de Araújo Sequeira, Curadora

Ana Cristina Dias

Já se passou muito tempo desde o dia do seu nascimento, num mês de julho em que Portugal ainda vivia mergulhado na ditadura e Lisboa era bem diferente da que conhecemos hoje.

Em criança, queria ser rapaz e pintora. Rapaz, porque tantas vezes ouvira o lamento do pai por não ter tido um filho — apenas três filhas. Pintora, porque ele próprio pintava, e um dos seus quadros ocupava uma parede na sala de jantar. Hoje, com orgulho, afirma: é mulher e é artista plástica.

Estudou na Escola Artística António Arroio, licenciou-se em Pintura na Faculdade de Belas-Artes de Lisboa e frequentou um curso de gravura. Mais tarde, percebeu que a gravura não era o seu caminho: o processo exige sucessivas provas e tentativas, e nunca foi pessoa de grandes esperas — nem a idade lhe trouxe paciência para isso.

A câmara fotográfica tornou-se uma companheira fiel e, ao lado da natureza, desempenha para ela quase uma função de psicanálise. Vive de hábitos e rotinas simples. Gosta de desporto porque este lhe liberta o corpo da imobilidade que a pintura lhe impõe durante horas.

Considera-se uma contadora de histórias: através do seu trabalho artístico, inventa narrativas inspiradas num universo ora fantástico, ora idílico. Gosta de viajar para longe dos grandes centros urbanos e escolher paisagens ainda pouco ou nada transformadas — lugares selvagens, onde os animais vivem em plena liberdade. Diz e dirá sempre “não” a gaiolas e “não” a jaulas.

Nessas viagens, recolhe muitas fotografias que, mais tarde, servem de matéria para os seus trabalhos. Mesmo quando não as representa diretamente, são sempre fonte de enriquecimento pessoal. Quanto mais aprofunda o autoconhecimento, mais fluido se torna o seu trabalho, porque o que conta é, inevitavelmente, sobre ela e a sua visão da vida e do mundo.

E, à parte de tudo isso, há um detalhe importante: é gulosa e adora gelados.


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