EM FOCO | SETEMBRO

Rogério da Silva

SOBRE O ARTISTA

Rogério da Silva é artista visual e escritor. Licenciado em Arte Multimédia pela Faculdade de Belas Artes (FBA/UL), conclui em 2018 na mesma Faculdade mestrado em Arte Multimédia na vertente de Audiovisuais. É investigador colaborador no Centro de Investigação em Belas-Artes (CIEBA-FBA/UL).
 
A sua obra tem sido reconhecida em diversas exposições e prémios. Em 2024, foi finalista do The Sovereign Portuguese Art Prize com a obra The Balcony, apresentada na Sociedade Nacional de Belas Artes, em Lisboa. No mesmo ano, participou na V Bienal de Desenho de Almada – Prémio Pedro de Sousa 2024, onde recebeu uma menção honrosa pela obra Bird Eye.
 
Como artista visual, destaca-se pelo seu trabalho em desenho e investigação sobre o tempo e simulação da imagem fotográfica no desenho. É autor do livro de contos Estrada do Pacífico editado pela Língua Perfeita Editora.

ARTIGO EDITORIAL

Onde a imagem se torna estranha

Entre desenho e fotografia, Rogério da Silva trabalha a imagem como matéria instável: algo que se constrói, se apaga e se transforma. No centro da sua prática está uma atenção persistente ao tempo, à memória e ao estranho que emerge dentro do familiar.

Antes de haver arte, o desenho

Rogério da Silva não identifica um momento preciso em que tenha chegado à arte. Em criança, desenhar era já uma ação quase física: lápis e canetas funcionavam como uma “extensão do corpo”. Mais do que reproduzir o mundo, interessava-lhe imaginar imagens cada vez mais estranhas.

A fotografia surgiu mais tarde, com uma máquina Yashica recebida na adolescência. Revelava os próprios rolos, ampliava imagens às escuras e chegou a construir uma pequena câmara pinhole. Fascinavam-no sobretudo as deformações que produzia — imagens que reencontravam algo dos desenhos da infância.

É nesse território que hoje reconhece a presença do uncanny: o familiar que, subitamente, se torna estranho.

Entre experiência e aprendizagem

O percurso artístico foi-se construindo entre formação e prática autónoma. Rogério da Silva passou pelas Artes Gráficas, pela pintura e pelo desenho, mantendo ao longo dos anos uma relação paralela com a fotografia e o vídeo.

Mais tarde, o regresso aos estudos permitiu-lhe aproximar prática e reflexão teórica. O artista descreve esse momento como um “renascimento artístico”: a experiência acumulada encontrou finalmente uma estrutura capaz de aprofundar o entendimento do seu próprio processo.

Desenhar como quem revela uma fotografia

Uma obra começa com uma visualização: um “esboço mental”. Segue-se a procura de fotografias e imagens de arquivo que possam estabelecer relações entre si e construir um equilíbrio comum.

É depois, na passagem da fotografia ao desenho, que acontece aquilo que Rogério entende como verdadeiro ritual. O processo aproxima-se da revelação fotográfica: acrescenta-se matéria, apaga-se, transforma-se.

A fotografia permanece uma referência central. Interessa-lhe o congelamento do tempo, a imagem difusa, as manchas e as imperfeições próprias dos seus processos. Depois de várias experiências, encontrou no pó de pastel, no papel e na borracha os materiais capazes de produzir a subtileza e a suavidade que procura.

“O processo é um aspecto fundamental, senão o mais importante. É a forma como decorre o processo que define o resultado da obra.”
— Rogério da Silva

O acidente também faz parte da imagem

Apesar de existir planeamento, Rogério da Silva não procura controlar totalmente a execução.

Manchas, dedadas ou outros acidentes podem permanecer no desenho. Em vez de serem corrigidos, tornam-se parte da obra — tal como os acidentes e imperfeições que podem surgir numa fotografia.

A imagem final guarda assim não apenas aquilo que foi pensado, mas também aquilo que aconteceu durante o processo.

Um contentor de experiências

Questionado sobre as influências que habitam o seu trabalho, Rogério responde que procura que ninguém o habite senão ele próprio. Ainda assim, reconhece que somos feitos de imagens, pessoas, acontecimentos e referências acumuladas.

“Quem somos nós senão um contentor de influências, de imagens, de pessoas e acontecimentos que marcaram e definiram a nossa vida?”

A ideia de contentor aproxima também desenho e escrita. Em Estrada do Pacífico, livro construído a partir de experiências de viagem, reaparece a mesma estranheza que atravessa o seu trabalho visual. Para Rogério, entre os desenhos e as histórias, “a distância é curta”.

O que permanece por revelar

Entre fotografia, desenho e escrita, o trabalho de Rogério da Silva parece regressar continuamente à mesma questão: o que acontece a uma imagem quando deixa de ser apenas aquilo que reconhecemos?

Talvez por isso escolha O Museu da Inocência, de Orhan Pamuk, como uma obra que alterou a forma como olha para os objetos.

E o próximo movimento acontece novamente através da escrita. Rogério da Silva está agora a trabalhar num romance. Por enquanto, é tudo o que decide revelar.

Artigo editorial elaborado com base em entrevista realizada ao artista Rogério da Silva.

OBRAS EM DESTAQUE

2024 · Pó de pastel e borracha sobre papel · 55 x 80 cm
Olho de Pássaro

Em Olho de Pássaro, a paisagem surge quase dissolvida pela luz e pela memória. A distância entre ver e reconhecer transforma o lugar numa imagem simultaneamente familiar e inacessível.

2024 · Pó de pastel e borracha sobre papel · 67× 90 cm
A Varanda

Em A Varanda, fragmentos de figuras e interiores sobrepõem-se como vestígios de uma memória incompleta. Entre desenho e fotografia, a imagem permanece reconhecível, mas nunca totalmente acessível.

2022 · Pó de pastel e borracha sobre papel · 50 × 65 cm
Dormência

Em Dormência, corpo e matéria parecem fundir-se num estado de suspensão. A suavidade da imagem contrasta com uma estranheza subtil, entre presença, memória e desaparecimento.

2022 · Pó de pastel e borracha sobre papel · 65 × 50 cm
O Momento

Em O Momento, uma figura recolhida é fixada num instante sem antes nem depois. A imagem suspende o tempo e transforma um gesto íntimo numa presença silenciosa e ambígua.

Sara de Araújo Sequeira, Curadora da 23A Galeria

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