SOBRE O ARTISTA

ARTIGO EDITORIAL
Antes de haver arte, o desenho
Rogério da Silva não identifica um momento preciso em que tenha chegado à arte. Em criança, desenhar era já uma ação quase física: lápis e canetas funcionavam como uma “extensão do corpo”. Mais do que reproduzir o mundo, interessava-lhe imaginar imagens cada vez mais estranhas.
A fotografia surgiu mais tarde, com uma máquina Yashica recebida na adolescência. Revelava os próprios rolos, ampliava imagens às escuras e chegou a construir uma pequena câmara pinhole. Fascinavam-no sobretudo as deformações que produzia — imagens que reencontravam algo dos desenhos da infância.
É nesse território que hoje reconhece a presença do uncanny: o familiar que, subitamente, se torna estranho.
Entre experiência e aprendizagem
O percurso artístico foi-se construindo entre formação e prática autónoma. Rogério da Silva passou pelas Artes Gráficas, pela pintura e pelo desenho, mantendo ao longo dos anos uma relação paralela com a fotografia e o vídeo.
Mais tarde, o regresso aos estudos permitiu-lhe aproximar prática e reflexão teórica. O artista descreve esse momento como um “renascimento artístico”: a experiência acumulada encontrou finalmente uma estrutura capaz de aprofundar o entendimento do seu próprio processo.
Desenhar como quem revela uma fotografia
Uma obra começa com uma visualização: um “esboço mental”. Segue-se a procura de fotografias e imagens de arquivo que possam estabelecer relações entre si e construir um equilíbrio comum.
É depois, na passagem da fotografia ao desenho, que acontece aquilo que Rogério entende como verdadeiro ritual. O processo aproxima-se da revelação fotográfica: acrescenta-se matéria, apaga-se, transforma-se.
A fotografia permanece uma referência central. Interessa-lhe o congelamento do tempo, a imagem difusa, as manchas e as imperfeições próprias dos seus processos. Depois de várias experiências, encontrou no pó de pastel, no papel e na borracha os materiais capazes de produzir a subtileza e a suavidade que procura.
“O processo é um aspecto fundamental, senão o mais importante. É a forma como decorre o processo que define o resultado da obra.”
— Rogério da Silva


O acidente também faz parte da imagem
Apesar de existir planeamento, Rogério da Silva não procura controlar totalmente a execução.
Manchas, dedadas ou outros acidentes podem permanecer no desenho. Em vez de serem corrigidos, tornam-se parte da obra — tal como os acidentes e imperfeições que podem surgir numa fotografia.
A imagem final guarda assim não apenas aquilo que foi pensado, mas também aquilo que aconteceu durante o processo.
Um contentor de experiências
Questionado sobre as influências que habitam o seu trabalho, Rogério responde que procura que ninguém o habite senão ele próprio. Ainda assim, reconhece que somos feitos de imagens, pessoas, acontecimentos e referências acumuladas.
“Quem somos nós senão um contentor de influências, de imagens, de pessoas e acontecimentos que marcaram e definiram a nossa vida?”
A ideia de contentor aproxima também desenho e escrita. Em Estrada do Pacífico, livro construído a partir de experiências de viagem, reaparece a mesma estranheza que atravessa o seu trabalho visual. Para Rogério, entre os desenhos e as histórias, “a distância é curta”.
O que permanece por revelar
Entre fotografia, desenho e escrita, o trabalho de Rogério da Silva parece regressar continuamente à mesma questão: o que acontece a uma imagem quando deixa de ser apenas aquilo que reconhecemos?
Talvez por isso escolha O Museu da Inocência, de Orhan Pamuk, como uma obra que alterou a forma como olha para os objetos.
E o próximo movimento acontece novamente através da escrita. Rogério da Silva está agora a trabalhar num romance. Por enquanto, é tudo o que decide revelar.
Artigo editorial elaborado com base em entrevista realizada ao artista Rogério da Silva.
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Sara de Araújo Sequeira, Curadora da 23A Galeria
