SOBRE A ARTISTA

ARTIGO EDITORIAL
Um percurso conturbado, tardio e inevitável
Há percursos que só fazem sentido quando olhados para trás. O de Neide é desses: uma aptidão precoce para o desenho, uma entrada nas Belas-Artes do Porto que não chegou a acontecer de verdade, anos vividos no estrangeiro, outras profissões, outras vidas. E depois, quase inevitavelmente, o regresso à pintura — desta vez para ficar. “Foi essa ausência que acabou por tornar inevitável o regresso”, diz a artista, que encontrou na Faculdade de Belas-Artes de Lisboa o momento em que a pintura deixou de ser uma aptidão de infância para se tornar uma investigação disciplinada.
O desvio, longe de ser uma perda, revelou-se um activo. Deu-lhe a maturidade para compreender a pintura não como talento — palavra que ela usa com cautela — mas como “uma necessidade quase obsessiva”. É essa urgência, cultivada por anos de ausência, que alimenta hoje o rigor do seu processo.
Um mosaico de formação — academia, Florença e atelier
A formação de Neide é, como ela própria descreve, “um mosaico”. A academia deu-lhe estrutura; a investigação autodidata deu-lhe liberdade técnica. A passagem pela Angel Academy, em Florença, aprofundou os métodos tradicionais, mas foi a atitude perante o tempo — a paciência, a desaceleração, o respeito pelos ritmos do óleo — o que ficou verdadeiramente.
O Mestrado em Pintura, que frequenta actualmente, acrescenta uma camada reflexiva e teórica a uma prática já solidamente construída.
Como começa uma obra — lugares, luz e atenção lenta
As obras nascem de lugares que a artista vivenciou directamente — uma determinada luz, uma geometria inesperada, a atmosfera silenciosa de um espaço. Nada é pintado a partir do imaginado; tudo começa no real. O processo divide-se entre a pintura en plein air, construída directamente perante o motivo, e um trabalho de destilação no atelier, onde estudos, fotografias e anotações se fundem com memória e percepção subjectiva. Em ambos os casos, interessa a Neide uma atenção lenta e silenciosa, quase oposta à aceleração contemporânea.


Óleo sobre madeira — uma escolha de matéria e rigor
O seu meio é o óleo sobre madeira. A escolha não é arbitrária: a madeira oferece rigidez e superfície, alterando completamente a relação com a pincelada. O óleo, com a sua capacidade de criar camadas, gradações e sfumatos, permite uma profundidade cromática que nenhum outro material consegue replicar.
“O plano inicial funciona apenas como âncora. O resultado final nasce dessa negociação constante entre controlo e escuta.”
As referências invisíveis — de Hopper a Richter
As referências que habitam o trabalho de Neide, muitas vezes de forma invisível, revelam um olhar preciso e eclético: a quietude suspensa de Hammershøi e Edward Hopper, o rigor misterioso dos Realistas de Madrid — António López García, María Moreno, Isabel Quintanilla —, a dissolução atmosférica de Turner, a ambiguidade entre fotografia e gesto em Gerhard Richter. São influências que não se vêem à superfície, mas que estruturam a forma como a artista olha e decide.
O que ainda não pode mostrar — mas que a entusiasma
Para já, o que se anuncia é uma série monumental para a sua próxima exposição individual. O que a entusiasma não é apenas a escala, mas o processo serial: variações sobre o mesmo objecto, explorando luz, ângulo e diferentes momentos do dia. “O meu processo passa muitas vezes por fazer primeiro e compreender depois”, admite. É exactamente nesse espaço — entre o gesto e a compreensão — que a pintura de Neide acontece.
Artigo editorial elaborado com base em entrevista realizada à artista Neide Carreira.
OBRAS EM DESTAQUE



Sara de Araújo Sequeira, Curadora da 23A Galeria
