EM FOCO | JUNHO

Neide Carreira

SOBRE A ARTISTA

Neide Carreira (Leiria, 1992) é uma artista visual que vive e trabalha em Lisboa, focando-se no desenho e na pintura.

Licenciou-se na Faculdade de Belas-Artes da Universidade de Lisboa e, posteriormente, aprofundou o estudo de métodos tradicionais e académicos de pintura a óleo na Angel Academy em Florença, Itália. Atualmente, encontra-se a concluir o Mestrado em Pintura na Universidade de Lisboa. Desde 2017, o seu trabalho tem sido regularmente premiado e exposto tanto em Portugal como no estrangeiro.

Trabalhando no cruzamento entre os métodos tradicionais de pintura e a contemporaneidade, o seu trabalho nasce da ressonância dos lugares e de uma reverência perante o visível, utilizando o silêncio, a presença e a solitude como ferramentas para a contemplação.

ARTIGO EDITORIAL

A Pintura como Necessidade — O Regresso Inevitável de Neide

Uma artista que chegou tarde à tela, mas com a clareza de quem sabe exatamente o que procura. Entre o atelier, Florença e a luz dos lugares que habita, Neide fala sobre paciência, investigação e o que ainda não pode mostrar.

Um percurso conturbado, tardio e inevitável

Há percursos que só fazem sentido quando olhados para trás. O de Neide é desses: uma aptidão precoce para o desenho, uma entrada nas Belas-Artes do Porto que não chegou a acontecer de verdade, anos vividos no estrangeiro, outras profissões, outras vidas. E depois, quase inevitavelmente, o regresso à pintura — desta vez para ficar. “Foi essa ausência que acabou por tornar inevitável o regresso”, diz a artista, que encontrou na Faculdade de Belas-Artes de Lisboa o momento em que a pintura deixou de ser uma aptidão de infância para se tornar uma investigação disciplinada.

O desvio, longe de ser uma perda, revelou-se um activo. Deu-lhe a maturidade para compreender a pintura não como talento — palavra que ela usa com cautela — mas como “uma necessidade quase obsessiva”. É essa urgência, cultivada por anos de ausência, que alimenta hoje o rigor do seu processo.

Um mosaico de formação — academia, Florença e atelier

A formação de Neide é, como ela própria descreve, “um mosaico”. A academia deu-lhe estrutura; a investigação autodidata deu-lhe liberdade técnica. A passagem pela Angel Academy, em Florença, aprofundou os métodos tradicionais, mas foi a atitude perante o tempo — a paciência, a desaceleração, o respeito pelos ritmos do óleo — o que ficou verdadeiramente.

O Mestrado em Pintura, que frequenta actualmente, acrescenta uma camada reflexiva e teórica a uma prática já solidamente construída.

Como começa uma obra — lugares, luz e atenção lenta

As obras nascem de lugares que a artista vivenciou directamente — uma determinada luz, uma geometria inesperada, a atmosfera silenciosa de um espaço. Nada é pintado a partir do imaginado; tudo começa no real. O processo divide-se entre a pintura en plein air, construída directamente perante o motivo, e um trabalho de destilação no atelier, onde estudos, fotografias e anotações se fundem com memória e percepção subjectiva. Em ambos os casos, interessa a Neide uma atenção lenta e silenciosa, quase oposta à aceleração contemporânea.

Óleo sobre madeira — uma escolha de matéria e rigor

O seu meio é o óleo sobre madeira. A escolha não é arbitrária: a madeira oferece rigidez e superfície, alterando completamente a relação com a pincelada. O óleo, com a sua capacidade de criar camadas, gradações e sfumatos, permite uma profundidade cromática que nenhum outro material consegue replicar.

“O plano inicial funciona apenas como âncora. O resultado final nasce dessa negociação constante entre controlo e escuta.”

As referências invisíveis — de Hopper a Richter

As referências que habitam o trabalho de Neide, muitas vezes de forma invisível, revelam um olhar preciso e eclético: a quietude suspensa de Hammershøi e Edward Hopper, o rigor misterioso dos Realistas de Madrid — António López García, María Moreno, Isabel Quintanilla —, a dissolução atmosférica de Turner, a ambiguidade entre fotografia e gesto em Gerhard Richter. São influências que não se vêem à superfície, mas que estruturam a forma como a artista olha e decide.

O que ainda não pode mostrar — mas que a entusiasma

Para já, o que se anuncia é uma série monumental para a sua próxima exposição individual. O que a entusiasma não é apenas a escala, mas o processo serial: variações sobre o mesmo objecto, explorando luz, ângulo e diferentes momentos do dia. “O meu processo passa muitas vezes por fazer primeiro e compreender depois”, admite. É exactamente nesse espaço — entre o gesto e a compreensão — que a pintura de Neide acontece.

Artigo editorial elaborado com base em entrevista realizada à artista Neide Carreira.

OBRAS EM DESTAQUE

2018 · Óleo sobre papel · 56 × 76 cm
A Grande Roda

A Grande Roda retrata a casa abandonada dos avós da artista, encontrada após mais de dez anos de ausência. Óleo sobre papel que evoca memória e decadência — um espaço suspenso no tempo, lentamente reconquistado pela natureza.

2019 · Óleo sobre tela · 60 × 100 cm
Quarto Vermelho

Quarto Vermelho retrata o quarto abandonado da casa dos avós da artista, dominado por um vermelho intenso que carrega memória e ausência. Um espaço suspenso entre o que foi e o que já não é.

2025 · Óleo sobre madeira · 30 × 30 cm
Sem título (walkscapes)

Uma paisagem nocturna captada entre a escuridão da terra e a última luz do céu. Óleo sobre madeira onde os pontos de luz distantes da cidade traçam o horizonte, enquanto uma silhueta solitária guarda a margem da noite.

Sara de Araújo Sequeira, Curadora da 23A Galeria

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