SOBRE A ARTISTA

ARTIGO EDITORIAL
Impulso que nunca se corrige
Há uma crença tácita de que a criatividade infantil é uma fase — algo que se supera, que se civiliza. João Casanova cresceu numa casa onde ninguém acreditou nisso. As fogueiras, os buracos na parede pintados com cores diferentes, as reproduções toscas das exposições que os pais o levavam a ver desde os cinco anos: nada disso foi corrigido. Tudo foi estimulado. É daí que vem tudo — desta liberdade inaugural que ele nunca soube que era rara.
Aos vinte anos, contudo, algo quebrou. Um período de turbulência familiar marcou os seus trabalhos com angústia e revolta. A pintura tornara-se inseparável da tristeza: «Não conseguia pintar se não estivesse triste. Então queria estar triste e revoltado para pintar.» A tela era o destino de tudo o que pesava — feita de lençóis rasgados ou pranchas de contraplacado recolhidas no lixo. E chegou um dia em que esse peso se tornou insuportável. E parou. Por vinte anos.
A dança como escola do gesto
O silêncio pictórico não foi vazio. João Casanova encontrou na dança uma outra gramática para o mesmo impulso interior. Licenciou-se, aprofundou, formou-se. E o que a dança lhe deu — o sentido de ritmo, a tensão e a libertação, a consciência do gesto — não ficou na sala de ensaio. Migrou para a tela quando o regresso à pintura chegou, décadas depois.
A formação, diz ele, «é transversal a todas as artes». Não há separação estanque entre o que se aprende e o que se é. O corpo que dança e a mão que pinta habitam o mesmo espaço interno.
Como começa uma obra — lugares, luz e atenção lenta
O estúdio de João Casanova não é apenas um lugar — é um estado. «Quando vou pintar, vou para um território só meu, quase um voltar a ser criança.» Os materiais, por si sós, são já uma obra de arte. Mas a obra não nasce do pincel: começa com uma emoção, algo que ficou retido ao longo do dia, uma imagem que o transportou para outro cenário.


O percurso existe sempre antes do primeiro gesto. «Antes de tocar no papel, tenho todo o percurso ou linha condutora de tudo o que quero fazer. Conseguir executar isso é que às vezes é o desafio.». Entre a intenção e a execução vive o verdadeiro trabalho.
“A obra honesta — aquela que criaste de um modo totalmente desprovido de artifícios, sem tentar agradar, sem tentar ser o que não és ou fazer o que não habita em ti, seja por virtuosismo técnico ou por mera convenção — é a que verdadeiramente abre o teu caminho. A verdade é a mais segura das bússolas.”
A Memória involuntária das formas
O banco de imagens que alimenta o trabalho de João Casanova é vasto e maioritariamente inconsciente. Sargent, Sorolla, Turner habitam-no — não como modelos a imitar, mas como ressonâncias afectivas: a luz, a atmosfera, o impacto que uma superfície pintada é capaz de produzir antes de qualquer análise. No universo da aguarela contemporânea, nomeia Zbukvic, Castagnet, Nicolas Lopez e Chein Chung-Wei com a admiração desprovida de inveja de quem sabe exactamente o que o emociona.
As imagens assaltam-no enquanto pinta — cores, reflexos, fragmentos de memória visual sem origem definida. Não os chama nem os escolhe. Surgem.
A imanência como escolha
A grande transformação no regresso à pintura não é técnica — é filosófica. João Casanova não procura o drama nem o peso simbólico que marcou a sua fase inicial. «Não procuro que os meus trabalhos tenham um peso, um drama ou significados transcendentes. Procuro que estejam mais no campo da imanência.» A obra que existe no mundo, presente em si mesma, sem pedir interpretação.
O que o guia agora é uma ideia simples e exigente: a honestidade. Não a perfeição formal, mas a verdade do momento. Uma obra que não persegue tendências, que apenas existe como expressão autêntica de um instante específico de uma vida específica. É isso que define um caminho — e é isso que ele continua a procurar, agora nos passeios discretos pelo porto de Lisboa.
Artigo editorial elaborado com base em entrevista realizada ao artista João Casanova.
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Sara de Araújo Sequeira, Curadora da 23A Galeria
