EM FOCO | OUTUBRO

Maria De Fátima Silva

SOBRE A ARTISTA

Maria De Fátima Silva nasceu na Ericeira, em 1970. Entre 1990 e 1993 estudou Pintura no Ar.Co e, em 1994, licenciou-se em Design pelo IADE, uma dupla formação que marca o seu percurso.

A sua obra parte de uma procura constante por imagens onde o simbolismo do passado e do presente coexiste e se entrelaça. Guiada por uma mística intuitiva, a artista constrói e desconstrói os elementos de cada composição figurativa. O resultado é uma pintura que é também uma tomada de consciência do mundo espiritual.

Tem exposto em museus, galerias e bienais, em Portugal e no estrangeiro, com destaque para o MNAC, a Sociedade Nacional de Belas Artes, o Museu do Megalitismo em Mora e as Bienais de Cerveira e de Vila Nova de Gaia. Expôs também no Carrousel du Louvre, em Paris, e em Madrid.

ARTIGO EDITORIAL

A pintura como escavação do sagrado

Entre a mitologia, o megalitismo e a história espiritual portuguesa, Maria De Fátima Silva constrói uma pintura que começa no estudo dos símbolos e se completa num diálogo paciente com a própria obra.

Uma vocação com origem na Ericeira

Há vocações que se anunciam cedo e não voltam a hesitar. A de Maria De Fátima Silva tem data aproximada: aos doze anos já sabia que queria ser pintora. O caminho abriu-se através de uma tia e de uma memória de família invulgar — em criança, na Ericeira, essa tia posou algumas vezes para a Paula Rego.

É uma origem que diz muito. Antes de qualquer escola ou técnica, a pintura chegou-lhe como algo próximo, transmitido de pessoa para pessoa, através de uma história contada em casa. A arte não surgiu como abstração distante, mas como um lugar onde alguém que conhecia já tinha estado.

Entre a escola e o mundo

A formação deixou marca no modo como trabalha, sobretudo na forma como o processo se organiza. Mas a artista recusa uma leitura única: aquilo que pinta é resultado tanto do que aprendeu em contexto académico como do que foi descobrindo fora dele. As duas aprendizagens não competem — sobrepõem-se, como camadas de uma mesma superfície.

Primeiro o símbolo, depois a tela

Cada obra, ou cada série, nasce longe do cavalete. O ponto de partida é invariavelmente uma pesquisa teórica sobre significados e simbologia: o que uma forma quer dizer, que histórias carrega, que tradições a atravessaram. Só depois chega a pintura, que avança em simultâneo nas telas e nos esboços.

O método é de alternância. A artista passa de um suporte para o outro, deixa que um informe o outro, e regressa sempre que necessário, até que o trabalho encontre a sua forma final. Não há um gesto inaugural único, mas um vaivém contínuo entre pensamento e matéria.

Acrílico, tela e papel

Os materiais são vários, mas há uma base que se mantém: o acrílico, aplicado sobre tela e sobre papel. É uma escolha que acompanha bem um processo feito de alternâncias — permite trabalhar em camadas, retomar, corrigir e prosseguir, ao ritmo de uma investigação que nunca está totalmente fechada.

Um diálogo a dois

Perguntar a Maria De Fátima Silva sobre a tensão entre o que se planeia e o que a obra decide por si é receber uma resposta sem drama. Não há luta com o acaso, nem controlo absoluto: há conversa. A pintura responde, a artista escuta, e o resultado emerge dessa troca. O plano inicial — a pesquisa, os símbolos — é um ponto de partida, não uma prisão.

“O trabalho entra em diálogo comigo e eu com ele.”
— Maria De Fátima Silva

Geografias invisíveis

As referências que habitam o seu trabalho formam um mapa largo. Na pintura, convivem os renascentistas, os impressionistas e os contemporâneos. Fora dela, estende-se um território mais antigo e mais profundo: a literatura, a arqueologia, o megalitismo, a mitologia e, de forma particular, a história espiritual portuguesa.

É talvez aqui que o trabalho encontra o seu centro de gravidade. Menhires, antas e mitos não surgem como citação decorativa, mas como camadas de sentido que a pintura procura trazer à superfície. Pintar torna-se, assim, uma forma de escavação — de um passado que continua presente, ainda que silencioso.

As obras que mudam o olhar

Não existe, para a artista, uma única obra reveladora. Houve várias — suas e de outros — que alteraram a forma como vê o que faz. E essa é precisamente a questão: essas mudanças não são desvios, mas parte natural do caminho. O olhar vai-se refazendo com cada encontro.

O que ainda não se mostra

O que está a ser preparado permanece, por agora, em reserva. Mas a direção é clara: Maria De Fátima Silva continua a descobrir novos temas dentro da tradição espiritual portuguesa, uma fonte que não dá sinais de se esgotar. É dela que vem o impulso para continuar — e é a partir dela que se adivinha o próximo capítulo do seu trabalho.

Este artigo foi elaborado com base numa entrevista realizada à artista Maria De Fátima Silva para a secção Em Foco.

OBRAS EM DESTAQUE

2022 · Acrílico s/ papel arches · 31 x 23 cm
ORIENTALIS ANGELIS
2024 · Acrílico e grafite s/ tela · 33 × 23 cm
AUDIEMUS
2023 · Acrílico s/ papel arches · 23 × 33 cm
AURAS II
2024 · Acrílico s/tela · 23 × 33 cm
RECOLLECTIO

Sara de Araújo Sequeira, Curadora da 23A Galeria

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