EM FOCO | AGOSTO

Nuno Tuna

SOBRE O ARTISTA


Nuno Tuna, natural de Lisboa, iniciou a sua carreira em 1988 como designer gráfico e ilustrador. Especializado em Design de Identidade e Ilustração, desenvolveu projetos internacionais e é coautor do livro Mandela, o Rebelde Exemplar (2013).

Na sua prática artística, inspira-se na filosofia transumanista e na ciência especulativa para explorar temas como a tecnologia, a memória e a identidade. Através do desenho, pintura, escultura e vídeo, cria obras abstratas que desafiam a interpretação do público.

A sua obra propõe uma reflexão sobre os limites da condição humana num mundo em crescente transformação tecnológica.

ARTIGO EDITORIAL

Pensar através da imagem: o percurso inquieto de Nuno Tuna

Entre a disciplina do desenho e a incerteza como método, o artista fala sobre um trabalho que recusa fórmulas. Uma conversa sobre tecnologia, condição humana e o acaso como colaborador silencioso.

Uma linguagem desde sempre

Não há, na história de Nuno Tuna, um momento de revelação. A arte esteve sempre presente, quase como uma segunda língua aprendida em casa, onde o desenho era gesto quotidiano — algo que se aprendia por osmose, entre pessoas que desenhavam, pintavam, fotografavam ou trabalhavam objectos ligados à criação.

Ilustração e design vieram primeiro; as artes plásticas, depois. Mas hoje, olhando para trás, percebe que “sempre andei à procura da mesma coisa: uma forma de pensar através das imagens“, diz — mais um fio condutor do que uma sucessão de disciplinas independentes.

Disciplina como fundação

Aos dezassete anos, saiu da escola secundária — onde andava na António Arroio — para trabalhar num atelier de design gráfico. Foram, nas suas palavras, “cinco anos que me ensinaram disciplina, método e, sobretudo, a resolver problemas“, numa altura em que a maioria ainda estaria a decidir o que estudar.

Essa base atravessaria, ao longo de quase quatro décadas, identidade visual, ilustração, mobiliário, joalharia, equipamento desportivo e sinalética. “Nunca gostei da ideia de ficar preso a uma única área“, afirma, e essa recusa tornou-se quase um princípio de trabalho.

Em 2020, já com um percurso consolidado, entrou na Faculdade de Belas-Artes de Lisboa para estudar Pintura. Não foi à procura de um diploma: “a Faculdade deu-me sobretudo isso: um espaço para questionar o meu próprio trabalho e construir uma investigação artística mais consistente“.

O ritual da escrita lenta

Antes da imagem, vem o texto. Apontamentos soltos, pensamentos que se acumulam sem ordem aparente e que só depois são reorganizados até fazerem sentido.

Nuno Tuna desconfia da inspiração como motor criativo: “não acredito muito na ideia romântica da inspiração. A curiosidade é um motor muito mais interessante“. Interessa-lhe perceber de que forma a tecnologia está a transformar aquilo que entendemos por humano — e é essa reflexão que, mais tarde, encontra forma visual.

Essa curiosidade tem raízes antigas: um fascínio de infância pela ficção científica que usa a tecnologia para falar de nós próprios, quase sempre por vias distópicas. Uma influência que continua presente no trabalho, mesmo quando não é evidente à primeira vista.

Materiais em expansão

A pintura acrílica continua central — normalmente sobre tela, mas sem fidelidade rígida ao suporte. “O importante é a liberdade do gesto“, resume, não a ortodoxia do material.

A escultura surge de forma mais pontual, sobretudo por questões logísticas: cartão e massas de moldar no atelier, incursões em ferro e vidro em espaços externos, quando o projecto o exige.

Mais recentemente, a videoarte entrou como extensão natural da pintura e da escultura, e a ilustração autoral — tradicional e digital — reabriu um território que o próprio descreve como incerto: “ainda estou nessa fase de experimentação, mas faz sentido dentro do caminho que tenho vindo a construir“.

“Não vejo o erro como um problema. Muitas vezes é precisamente o erro que abre uma possibilidade que eu não tinha previsto.”

O acaso como colaborador

Entre a ideia e a tela existe sempre um território de negociação permanente. “A ideia nunca chega intacta à tela“, diz — entre aquilo que se imagina e aquilo que a mão faz, há sempre uma distância.

Nuno Tuna raramente volta atrás para corrigir o inesperado. Prefere perceber o que essa mudança lhe está a pedir e seguir esse caminho — uma atitude que transforma o erro de acidente em método.

Diálogos e referências

Não acredito em artistas que vivem fechados dentro das suas próprias influências. Tento olhar para tudo“, afirma. As referências vão mudando, e é nesse movimento que reside parte do interesse do processo.

Neste momento, olha com particular atenção para Manuel d’Assumpção, artista pouco estudado que descobriu recentemente; para Ilana Savdie, pelo pensamento do projecto artístico e pela dimensão física do gesto; para Le Corbusier, pela coerência entre arquitectura, pintura e escultura; e para António Faria, que o fez reconsiderar um preconceito antigo em relação aos temas vegetais.

Mas as referências não vêm apenas da arte. A filosofia, a ciência, a literatura e a cultura tecnológica alimentam o trabalho tanto quanto qualquer pintura ou escultura vista numa galeria.

Obras que empurram

A influência, para Nuno Tuna, nasce sempre da interacção entre o artista e aquilo que o rodeia, filtrada pela sua própria sensibilidade. “É impossível não haver influências externas“, admite — e talvez não valha a pena tentar escapar a isso.

Há obras que empurram o trabalho para a frente e outras que obrigam a mudar de direcção; é inevitável que isso aconteça, e é precisamente isso que define a contemporaneidade de uma prática artística. “Prefiro pensar que o meu trabalho resulta desse diálogo constante com muitas referências, em vez de uma influência dominante“, resume.

O que vem a seguir

Depois de sentir, durante algum tempo, que a pintura começava a encontrar uma linguagem própria, Nuno Tuna percebeu também que corria o risco de repetir uma fórmula: “achei que era demasiado cedo para assumir uma personalidade pictórica nesta fase do meu percurso artístico“.

Está, por isso, a desmontar algumas certezas para perceber até onde pode levar o trabalho. A relação entre tecnologia, identidade e condição humana continua a interessar-lhe — não prevê que esse tema mude tão cedo — mas quer que essas ideias apareçam de forma cada vez menos ilustrativa e mais integrada na própria pintura.

Ainda não sabe exactamente onde isso o vai levar. E talvez seja essa incerteza que mais o entusiasma.

Artigo editorial elaborado com base em entrevista realizada ao artista Nuno Tuna.

OBRAS EM DESTAQUE

2024 · Grafite e carvão sobre papel reciclado · 45 x 33,7 cm
Esquiço_04 (CFC_E10)
2024 · Acrílico sobre aglomerado de celulose · 61 × 40 cm
CFC1124
2026 · Acrílico sobre tela · 75 × 55 cm
Estrutura III
2026 · Acrílico sobre tela · 130 × 200 cm
Estrutura II

Sara de Araújo Sequeira, Curadora da 23A Galeria

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