Paisagens Nómadas
Em Paisagens Nómadas, Leonor Pires apresenta um conjunto de pinturas que se afirmam como territórios em permanente deslocação. Mais do que representar lugares identificáveis, a artista propõe paisagens como experiências sensoriais e estados de memória, construídos através da matéria, do gesto e do tempo. Cada obra funciona como um espaço transitório, onde a pintura se constrói por acumulação, apagamento e reinscrição.
A paisagem surge aqui despojada de referência geográfica direta. Linhas de horizonte instáveis, campos cromáticos interrompidos e gestos incisivos organizam o espaço sem o fixar, sugerindo percursos, erosões e ritmos orgânicos. O olhar é convidado a vaguear por superfícies densas e silenciosas, onde a tensão entre presença e ausência se torna elemento estruturante da composição.
A matéria pictórica desempenha um papel central neste corpo de trabalho. Raspagens, riscos, camadas espessas e zonas de rarefação revelam um diálogo constante entre controlo e acaso, gesto e contenção. A paleta — dominada por ocres, terras, cinzas, azuis velados e brancos luminosos — constrói atmosferas suspensas, evocando paisagens interiores marcadas pela passagem do tempo e pela transformação contínua.
Estas paisagens são nómadas porque nascem do movimento: deslocam-se entre o figurativo e o abstrato, entre o vivido e o lembrado, entre diferentes geografias e experiências. O tema do tempo e da memória, recorrente na obra da artista, manifesta-se aqui através da própria superfície pictórica, entendida como lugar de sedimentação e resistência.
Sara de Araújo Sequeira, Curadora