21.01.2026
04.02.2026

Paisagens Nómadas

Em Paisagens Nómadas, Leonor Pires apresenta um conjunto de pinturas que se afirmam como territórios em permanente deslocação. Mais do que representar lugares identificáveis, a artista propõe paisagens como experiências sensoriais e estados de memória, construídos através da matéria, do gesto e do tempo. Cada obra funciona como um espaço transitório, onde a pintura se constrói por acumulação, apagamento e reinscrição.

A paisagem surge aqui despojada de referência geográfica direta. Linhas de horizonte instáveis, campos cromáticos interrompidos e gestos incisivos organizam o espaço sem o fixar, sugerindo percursos, erosões e ritmos orgânicos. O olhar é convidado a vaguear por superfícies densas e silenciosas, onde a tensão entre presença e ausência se torna elemento estruturante da composição.

A matéria pictórica desempenha um papel central neste corpo de trabalho. Raspagens, riscos, camadas espessas e zonas de rarefação revelam um diálogo constante entre controlo e acaso, gesto e contenção. A paleta — dominada por ocres, terras, cinzas, azuis velados e brancos luminosos — constrói atmosferas suspensas, evocando paisagens interiores marcadas pela passagem do tempo e pela transformação contínua.

Estas paisagens são nómadas porque nascem do movimento: deslocam-se entre o figurativo e o abstrato, entre o vivido e o lembrado, entre diferentes geografias e experiências. O tema do tempo e da memória, recorrente na obra da artista, manifesta-se aqui através da própria superfície pictórica, entendida como lugar de sedimentação e resistência.

Sara de Araújo Sequeira, Curadora

Leonor Pires

Nascida em Lisboa, Leonor Pires desenvolveu grande parte da sua formação e percurso artístico em Bruxelas, onde se formou em pintura em Atelier de Mestre e na Academia de Artes de Uccle. Frequentou ainda ateliers de formação artística e cursos MOOC no Centro Georges Pompidou, em Paris, bem como o Atelier de Escultura Bianchetti, em Brasília. Tendo vivido em vários países, a diversidade cultural e geográfica assume um papel decisivo na construção do seu universo artístico.

As suas obras foram expostas em galerias de Bruxelas, Lisboa e Brasília, afirmando um percurso coerente em torno das questões do tempo, da memória e da paisagem enquanto espaço sensível. Em 2023, a artista regressou a Lisboa, onde continua a desenvolver um trabalho que se constrói na tensão entre deslocação e pertença, permanência e transformação.


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