Olhar Feminino: entre o intímo e o político
Uma exposição que reúne artistas mulheres, não como categoria identitária, mas como posição crítica, sensível e criativa no mundo.
Enquadramento Conceptual
O projeto expositivo Olhar Feminino: entre o íntimo e o político nasceu da necessidade de aprofundar a reflexão sobre a produção artística contemporânea de mulheres, não enquanto categoria homogénea ou identidade fixa, mas enquanto campo plural de experiências, discursos e posicionamentos críticos.
A expressão “entre o íntimo e o político” é entendida, neste contexto, como um espaço de ligação e de tensão entre a vida pessoal e a vida pública. Parte do princípio de que não existe uma separação absoluta entre o que é vivido de forma privada — emoções, experiências, relações, memória, identidade, corpo, linguagem — e as estruturas sociais, culturais e políticas que moldam essas vivências. O íntimo é, assim, atravessado por normas, expectativas, relações de poder e mecanismos de controlo, enquanto o político se manifesta de forma concreta no quotidiano e na experiência individual.
O conceito de “olhar feminino” é aqui assumido como uma construção histórica, social e simbólica: um lugar de enunciação marcado por condições específicas de visibilidade, silêncio, exclusão e resistência. Trata-se de um olhar que emerge frequentemente do espaço íntimo — a casa, o corpo, os afetos, a memória — mas que se projeta inevitavelmente no espaço público, transformando experiências pessoais em matéria crítica e partilhável.
A exposição afirma, deste modo, que o íntimo não é neutro nem apolítico. Pelo contrário, é um território onde se inscrevem desigualdades estruturais, expectativas de género e formas subtis ou explícitas de poder. Ao trazerem estas dimensões para o espaço expositivo, as artistas não expõem apenas narrativas individuais, mas ativam processos de reconhecimento, confronto e reflexão coletiva.
Inserido simbolicamente no contexto do Dia Internacional da Mulher, o projeto decorre entre 8 e 15 de março, evitando uma abordagem celebratória ou ilustrativa. Propõe, antes, um espaço de escuta e pensamento crítico, no qual o público é convidado a questionar o seu próprio lugar de observação e a reconhecer como aquilo que parece pessoal é, muitas vezes, profundamente político.
Artistas e Obras
Foram convidadas a participar artistas mulheres que já tenham exposto anteriormente na 23A Galeria, bem como outras artistas que a galeria considere poderem dar um contributo relevante no contexto conceptual da exposição.
Este critério assume um duplo propósito: por um lado, valoriza e dá continuidade ao percurso expositivo da galeria, reconhecendo as relações construídas ao longo do tempo; por outro, permite estabelecer novos diálogos, integrando práticas que ampliem e complexifiquem o discurso curatorial.
A seleção das artistas não se baseia numa afinidade estética ou formal, mas na relevância das suas práticas para o eixo conceptual da exposição, bem como na diversidade de linguagens, gerações e abordagens representadas.
![]() | Catarina Leonardo Intimidade, 2022 Fotografia digital a cores 70x50cm Uma mulher trabalha sozinha, rodeada pelas obras que criou. No espaço íntimo constrói a sua força. É ali que se forma a presença e a maneira de habitar o mundo. O gesto criativo é também afirmação. Solidão não é ausência, é construção. |
![]() | Elisa Ribeiro Ferreira Percurso da linha, 2026 Caneta Posca sobre papel 65x50cm Camadas acumulam-se em curvas e intensidades. Revelam-se, escondem-se, misturam-se. Há um ritmo que persiste. Nem tudo precisa ser nomeado. O gesto constrói presença. O que permanece é movimento interior. |
![]() | Filipa Alfama Corpo imaginado, 2021 Fotografia impressa em linho 50x70cm O corpo feminino é território de projeção. Antes de ser vivido, foi imaginado. Moldado pelo olhar, fragmentado pela norma. Carrega narrativas que não lhe pertencem. Entre memória coletiva e experiência própria, reivindica-se como presença inteira. |
![]() | Filipa Cabecinha Herança, 2026 Acrílico sobre tela 80x50cm A obra Herança estabelece um encontro entre memória e presente. Evoca os anos 70, marcados pela luta por direitos que muitas vezes tomamos como adquiridos. Sugere a reflexão sobre o nosso papel na sociedade atual. Fica claro que a igualdade não é linha reta, mas um processo contínuo de consciência, questionamento e ação |
![]() | Inês Assis Entre o caos e o colo, 2026 Acrílico sobre tela 40x50cm Um véu filtra luz e movimento. Por trás, o caos pulsa e fragmenta-se. Dois corpos reconhecem-se como abrigo. O cuidado torna-se gesto central. O feminino é espaço de acolhimento. Mesmo na instabilidade, há refúgio. |
![]() | Julieta Oliveira Lar. Lavores. Leito., 2026 Cerâmica vidrada com fios de algodão 40x40cm Lar. Lavores. Leito. Três palavras masculinas que carregam um universo feminino. Guardam séculos de práticas, expectativas e atribuições que recaíram sobre a mulher. Com esta peça pretendo refletir sobre o peso que estes universos femininos ainda transportam e propondo novas formas de olhar esta paisagem. |
![]() | Leonor Pires Éter, 1995 Acrílico e giz sobre tela 80x80cm Um vazio instala-se como matéria. A ausência ganha peso e respira. Sou forma sem conteúdo fixo, pensamento que persiste por hábito. O mundo segue desalinhado. Contemplo o nada e chamo-lhe destino. |
![]() | Margarida dos Santos Natália, 2013 Monotipia sobre papel de aguarela 51x39cm O corpo ocupa o espaço sem pedir licença. O olhar frontal recusa ser objeto. Entre intimidade e afirmação, a figura sustenta a própria liberdade. Não é fragilidade, é consciência. Presença inteira, sem domesticação. |
![]() | Maria De Fátima Silva Caelesti saltpeter | Salitre celeste, 2026 Acrílico e grafite sobre tela 40x40cm Em cada Mulher habitam várias Deusas, em cada uma o Sagrado. Como iniciadora, liga o Céu e a Terra. A sua condição humana ganha asas e a transformação acontece! A nossa consciência intensificada pelo sal e pelo mandra. |









